sexta-feira, 29 de maio de 2015

Morgana - Convidado do Dia


O texto de hoje é nos escrito por uma participante firme do nosso grupo e contemporânea do seu início: Ana Carolina. Hoje escreve-nos sobre o seu "queridinho" Morgana:


Escolhi estrear a minha participação no blog com uma das minhas grandes paixões onomásticas: Morgana! Este nome cheio de presença, nobreza, força interna e encantamento – que, algum dia, caso tudo corra bem, tenciono dar a uma pequena fada que venha a ter como filha – enche-me os olhos, os ouvidos e o coração!

Embora a alguns possa parecer carregar uma aura bastante contemporânea, trata-se de um nome deveras antigo, associado a criações literárias produzidas durante o período medieval – cuja fonte de inspiração consistiu nas histórias da lenda do Rei Artur, todo o seu imaginário cavaleiresco e na tradição celta e pagã. Aparentemente, não há quaisquer evidências históricas de seu uso como nome por pessoas reais antes de 1600. 

Do galês Morcant ("mar circular"; "rodeado de mar"), que também dá origem à popular variante unissex Morgan entre os anglófonos, Morgana parece ter tomado forma, como personagem lendária, a partir do século XII, pelos cantos e declamações dos menestréis da Bretanha e de Gales. 

Etimologicamente, algumas fontes atentam, ainda, para o gaélico Muirgen e seu significado "mulher que veio do mar", ou mesmo para "mar belo". Tal origem aquática denota seu vínculo com as águas sagradas, de natureza espiritual, da Ilha Encantada, chamada Avalon – aquelas onde a vida se inicia e dão acesso ao "outro mundo". No folclore bretão, ela é uma ninfa; nas lendas e tradições galesas, que correspondem às primeiras narrativas, é a divindade aquática Modron, filha de Avallach, rei da mencionada Ilha. 

Originalmente, Morgana, conhecida pelo epíteto Morgana Le Fay, a Fada, era associada à deusa irlandesa Macha ou à Morrighan – sendo a primeira, segundo certas fontes, uma das faces desta última, que é a deusa guerreira, da morte e da fertilidade. Mais tarde, em outras versões, convertida em uma grande, mas (ao menos, aparentemente) simples sacerdotisa, surge como a Senhora de Avalon, ali iniciada nos mistérios da magia da religião ancestral e no culto à Deusa. 

Ademais, segundo estudiosos das lendas do ciclo arturiano, Morgana simbolizaria uma figura soberana no Reino das Almas. Nesse sentido, o vocábulo latino "Mors", que corresponde à "morte", e "Ana", em referência à mãe de Maria, revelam-na como a "Grande Mãe".

De modo geral, retratada, ao longo do tempo, como uma personalidade enigmática e paradoxal, Morgana, nas primeiras histórias, é uma fada de natureza essencialmente virtuosa, atuando como aliada de Artur na execução de sua empreitada – conferindo-lhe, basicamente, proteção, os atributos da força e coragem, vitórias e longevidade. Com a gradativa conversão ao cristianismo, vários narradores fizeram as suas adaptações e conferiram outra abordagem a muitos aspectos das velhas crenças pré-cristãs até então presentes nas histórias que contavam – transmudando a personagem em uma figura mais humana, complexa, ambígua e também mais sinistra em razão de sua origem pagã. 

Devo destacar que, se é certo que este prenome já me intrigava e despertava em outros tempos considerável carinho – envolvendo-me em sua sonoridade, especial magnetismo ou energia –, também é verdade que foi a partir da conhecida e influente obra As Brumas de Avalon que Morgana ganhou, finalmente, o meu coração. Dentre as várias personalidades femininas que compõem o ciclo – em geral, indispensáveis no sentido de ajudar a tecer os destinos dos reinos de toda a Britânia –, a Senhora de Avalon parece-me, sobretudo na mencionada versão de Marion Zimmer Bradley, inequivocamente, aquela mais cativante.

Embora, na generalidade das versões, Morgana – cuja figura, na tradição arturiana, pode assumir as formas de donzela, anciã, deusa, fada, sacerdotisa ou feiticeira maléfica – seja certamente uma anti-heroína, é esta complexidade que a torna uma individualidade deliciosamente rica e fascinante. Ao mesmo tempo em que auxilia Artur e empreende a sua desgraça, concorre para a ocorrência de intrigas e mortes e seja tratada como o bode expiatório de todo o mal que acomete Camelot, parece-me também uma mulher particularmente forte, justa, tolerante e fiel ao seu senso de honra. Pratica o auto-sacríficio, é irresignada à ordem estabelecida, em que pese as constantes perseguições. 

Como infelizmente (ou felizmente) não chega a surpreender, o nome desta trágica e distinta heroína está longe de ser dos mais tradicionais ou propriamente apreciados entre os brasileiros e, sobretudo, os portugueses. Pelo contrário, de modo geral, parece encontrar eco em preferências e estilos onomásticos pessoais específicos – o que, pelo seu consequente pouco uso, sem dúvida, confere ao nome originalidade e brilho suficientes. Uma pequena Morgana dificilmente passaria despercebida ou indiferente por onde passasse! Antes, desabrocharia!

Em Portugal, no ano de 2014, Morgana contou com 10 registros; 7, em 2013; apenas 1, em 2012, e 14 em 2011. No Brasil, em que pese a impossibilidade de se avaliar a incidência do seu uso, dada a ausência de dados registrais oficiais em cada um dos estados da federação, parece-me um nome, sem dúvida, invulgar, ainda que não desconhecido por muitos. Um possível caso à parte, contudo, quanto à popularidade de Morgana em terreno brasileiro, estaria no estado do Rio Grande do Sul, vez que, segundo a nossa querida participante Juliana Zalamena, este teria sido um nome especialmente comum à geração de mulheres gaúchas nascidas na década de 90. 

Facilmente identificado internacionalmente, o nome comporta, basicamente, sem a exclusão de outras, as seguintes variantes ou alternativas: 
Morgan (do galês, inicialmente um nome masculino, e atualmente de uso unissexo, em alguns países anglófonos); Muirghein (uso unissexo, irlandês); Morien (gênero masculino, galês); Morgane (gênero feminino, francês); Morgain/Morgaine (uso inicial, aparentemente, exclusivamente literário, representado pelos franceses); Morrígan/Morrighan (personagem lendária, irlandesa, sem indícios históricos de prévio uso por pessoas reais).

Morgana é, em suma, a meu ver, um belo nome por si só – poderoso em aspecto e pronúncia –, além de privilegiado pela carga de sua história reconhecida e (re)contada ao longo dos tempos, que nos traz uma personagem arquetípica, repleta de simbolismo, que exala força, perseverança, autoridade e empoderamento feminino e que, sobretudo, é profunda e complexamente humana. 

Ana Carolina Gomide Guimarães

E vocês, o que pensam deste nome? Dá-lo-iam a uma filha? 

14 comentários:

  1. O texto está maravilhoso :D Muitos Parabéns Ana Carolina, acho que depois de um texto tão bom, todos ficamos a adorar Morgana ;)

    ResponderEliminar
  2. Parabéns Ana Carolina, o texto está riquíssimo, repleto de informações, adorei! Morgana é realmente um nome intrigante e tb misterioso,gosto muito nesse sentido.

    ResponderEliminar
  3. Muito obrigada, queridas! Fico muito feliz que tenham gostado! Foi pesquisado e escrito com muito carinho! Grande abraço!

    ResponderEliminar
  4. Gosto de Morgana e da sua relação "de fadas" com o meu Oriana. Adorava ver duas amigas Oriana & Morgana ou duas irmãs Morgana & Melodia

    ResponderEliminar
  5. Confirmo. Uma breve pesquisa no google ou no facebook irá resgatar muitas mulheres chamadas Morgana, todas mais ou menos na mesma faixa etária e invariavelmente todas aqui do sul do Brasil. Penso que, talvez, tenha se originado da popularidade da novela Que Rei Sou Eu, onde havia uma personagem chamada Morgana, se não estou enganada.

    ResponderEliminar
  6. Lembro de quando você me disse esse nome pela primeira vez e a minha reação não foi muito boa, mas depois de você falar tantas e tantas vezes, até que começo a gostar do nome. Seu texto ficou ótimo!

    ResponderEliminar
  7. Gostei do texto e o significado que envolve o nome, contudo, a sonoridade a mim parece demasiado pesada pelo que não considero o nome para uso pessoal. Mas apoio a sua escolha ;)

    ResponderEliminar
  8. Muito obrigada, Joana e Luinara! Admito que imagino que não deva ser uma escolha tão fácil assim, por muitos, de entranhar... :)

    ResponderEliminar
  9. Adorei o texto, Ana Carolina! Eu adoro Morgana e usaria em uma filha. :)

    ResponderEliminar
  10. Não gosto lá muito de Morgana mas adorei o texto

    ResponderEliminar
  11. O texto, sem dúvida, está muito bem escrito. O único problema, para mim, é que detesto o nome Morgana, acho horrível, para mim é o nome feminino mais feio que pode existir.

    Ana Carvalho.

    ResponderEliminar