terça-feira, 1 de março de 2016

Mourana


Mourana é daqueles nomes interessantíssimos que se nos saltam à vista, entre tantos outros que constituem a lista portuguesa de nomes autorizados pelo IRN. O meu primeiro instinto foi associá-lo à palavra mouro, que sempre foi usada para designar os povos muçulmanos que habitavam a Península Ibérica antes da Reconquista Cristã e antes, até, da formação de Portugal. Este é um período da História particularmente fascinante, ainda estamos a tentar perceber quem nós – portugueses – somos e basicamente o que queremos fazer da vida com tanto território por conquistar ao sul.

Algumas fontes que consultei davam a indicação de que Morana (a grafia é muito parecida e podia ser uma variante deste nome) era um dos nomes atribuídos a uma deusa nórdica, mais conhecida por Marzanna (em polaco), que estaria associada aos conceitos de morte e renascimento, representando o inverno e os pesadelos. Apesar de deusa, na sua religião, não ser das mais apreciadas, sendo, por oposição, das mais temidas, não posso deixar de achar que a ideia de Mourana poder estar associada a uma Deusa do Inverno é absolutamente extraordinária e bonita! No entanto, e procurando ser realista, esta era apenas uma hipótese que levantei no processo de investigação pela origem do nome e, hoje, acho que não é muito viável.

Curiosamente, os novos caminhos de investigação que segui levaram-me diretamente ao meu ponto de partida: aos mouros. Mas será que Mourana significaria, de alguma forma, moura? As mouras assumiram um papel curiosíssimo no folclore português durante séculos, tendo o povo se referido a elas como seres sobrenaturais que enfeitiçavam os homens e guardavam grandes e preciosos tesouros! São inúmeras as lendas medievais que se teceram em torno destas mouras encantadas, muitas delas ainda hoje em dia conhecidas, outras esquecidas pelos tempos e outras, ainda, perpetuadas em nomes de cidades, vilas, aldeias e até nos nossos sobrenomes. Realmente, a cultura popular é de uma riqueza maravilhosa, daí o meu entusiasmo com a possibilidade de Mourana estar associado às mouras. Contudo, a ligação provou-se ser outra.

Na verdade, o primeiro registo conhecido de uma Mourana data do início do século XIII, quando o rei português D. Afonso III termina a reconquista cristã na zona do Algarve. Conta-se que lá vivia um alcaide e sua filha, Madragana, cuja beleza e feitio encantaram o nosso rei que fez dela sua amante e com quem criou linhagem, ainda que não tenha sido oficialmente reconhecida. Para poder conviver e manter uma relação com o rei de Portugal esta jovem teve de ser batizada e D. Afonso escolheu-lhe o nome Mor Afonso, um nome muito comum nessa época conforme já tivemos oportunidade de abordar aqui no Blog, acrescentando-lhe o seu nome como gesto de carinho e proteção. Nas crónicas portuguesas mais antigas é comum que Madragana seja tratada por Mor, por Mouroana, Mourana ou Madraganil. De facto, o seu nome não era Mourana, como andámos à procura, mas no seio destes documentos que comprovam a sua existência, encontra-se a justificação de que estas designações alternativas se tratam de nomes cristãos e que Mourana era, na verdade, uma variação dos nomes Ouroana ou Aureana, numa aglutinação criativa com o seu nome original e com o seu novo nome de batismo.

Resumindo e concluindo, Mourana trata-se de uma variação de Ouroana, um nome muito conhecido e utilizado pela população portuguesa na Era Medieval, que tem as suas raízes na palavra latina aurum, que significa ouro. Por sua vez Mourana significa algo como aquela que é feita de ouro, aquela que vale ouro. Acrescenta-se que desta palavra surgiram muitos outros nomes próprios, alguns deles muito conhecidos e apreciados na atualidade: Aura, Áurea, AuréliaAurora, Oriana, Orieta e Oureana.

No SPIE não é possível encontrar nenhum registo deste nome em Portugal entre os anos de 1920 e 1980, contudo, como o nome continua presente na lista, acredito que depois de 1980 tenha nascido alguma Mourana em Portugal ou, pelo menos, tenha sido feito um pedido de admissão do nome. Fica a grande questão no ar! Numa perspetiva mais recente, sabe-se que em 2013, 2014 e 2015 não existiu nenhum registo de menina com este nome, uma realidade que se extrapola também para o Brasil.

Numa altura em que nomes com a terminação –ana já não seduzem muitos corações portugueses e brasileiros, Mourana pode ter dificuldade em se destacar, sabendo de antemão que também é raríssimo e poucas pessoas devem existir com este nome; para não falar que quase se trata de um exclusivo português (mas de fácil internacionalização, creio). No entanto, olho para este nome com encanto e vejo nele muitas potencialidades: é forte, bonito, carismático e exclusivo. Tem um toque exótico que lhe atribui muitos pontos a favor e tem a possibilidade de gerar diminutivos muito queridos, sendo o meu favorito, o carinhoso e medieval Mor.

Que acharam de Mourana? Simpatizam?


Fontes Consultadas:
Behind The Name, NameBerry, Wikipédia (Marzanna), IRN, SPIE, ARPEN/SP, Geni – A Heritage Company, O Blog dos Nomes (Áurea, Aurora e Oriana), Pizarro (1999) Linhagens Medievais Portuguesas

3 comentários:

  1. Joana, meus parabéns pelo excelente post! Muitíssimo bem apresentado e pesquisado! Conseguiu descobrir de ondem vem o misterioso Mourana, confesso que fiquei curiosa em saber o desfecho. O modo como o post foi conduzido, prendeu minha atenção até o final! Adorei! O nome Mourana me era completamente desconhecido, gostei muitíssimo de saber mais sobre ele, mas a minha preferência ainda é por Morana, apesar dos nomes não terem ligação.

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  2. Adorei a foto e adorei saber mais sobre até nome.

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